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DÍVIDAS DE GRATIDÃO


Fique a vontade para ler a sinopse e o 1º capítulo desta obras de Francisco Maél, se quiser fazer contato com o autor sobre os livros ou ações sociais:
  Tel: (21) 99175 0690
E-mail: Franciscomael@yahoo.com.br.
  
 
Dívidas de gratidão é um pequeno romance que mostra a gratidão vinda daqueles a quem fizemos o bem. Os irmão Flecha Sereno sofrem com drama familiar de sequestro na família.
Num ato de violência do dia a dia, um deles perde a memória e vaga pela cidade em busca de informações sobre sua vida.
Um dos irmãos é dado como morto num acidente na estrada, piorando a dor da família Flecha sereno. Até onde você iria para ser grata? Você daria a sua vida para cumprir uma dívida de gratidão?
 
 
 1º CAPÍTULO
São Paulo capital. Hospital público São Francisco. Na sala de descanso dos médicos da emergência três homens conversavam em frente a uma televisão ligada. A sala não era grande, mas servia ao propósito de afastar por algum tempo o médico do local de trabalho. As paredes estavam sujas e manchadas, coisa que ninguém notava, pois o importante era a TV e o ar-condicionado estarem funcionando. Algumas poltronas velhas se espalhavam pelo local. Separado por uma porta, um outro cômodo também era usado pelos médicos, era um dormitório. Com algumas camas, esse dormitório era usado pelos profissionais que alternavam o plantão no turno da noite, porém todos eram acionados se houvesse necessidade.
Geralmente um grande hospital de emergência tem duas equipes distintas. Uma equipe clínica, que avalia e trata os pacientes com doenças em estado agudo. Outra equipe é a de trauma, que cuida dos pacientes que sofreram algum tipo de lesão e necessitam de alguma intervenção cirúrgica. Os médicos da equipe de trauma são os especialistas da área cirúrgica, como neurocirurgião, ortopedista, cirurgião geral e outros.
Aquele era um dos dias mais tranquilos do mês. Já estavam na metade do plantão e ainda não tinham perdido nem um paciente. Um residente em cirurgia geral estava na sala de trauma a fim de fazer os pequenos atendimentos, enquanto que os outros descansavam e conversavam sobre temas variados. Política de segurança pública era o tema da vez. Um dos homens, o mais novo, dizia que a causa da violência urbana estava numa polícia despreparada que causava mais violência que a própria sociedade. O número de pessoas baleadas por armas da polícia já era maior que as ocasionadas por marginais.
- Vejam só, atendemos tantas vítimas de arma de fogo que, segundo uma pesquisa, já superamos as guerras do oriente médio.
- O lado bom dessa violência é que acabamos tendo uma grande experiência com esses traumas, disse um moreno de jaleco impecável.
- Certamente é bom profissionalmente. Se conseguimos resolver esses casos, as doenças normais se tornam uma prática simples, voltou a dizer o mais novo.
- Ainda acho que todos deviam ser desarmados, inclusive a polícia, retomou o moreno.
A porta da sala foi aberta e um homem de camisa xadrez, mangas arregaçadas e de gravata anunciou:
- Está chegando um PAF (perfuração por arma de fogo), jovem de 16 anos.
O sistema de resgate por ambulâncias dos órgãos público era controlado por uma central que buscava o hospital do SUS (sistema único de saúde) mais próximo e que estivesse, no momento, preparado para atender ao paciente resgatado. No caso que estava ocorrendo, havia necessidade que o hospital tivesse um neurocirurgião no plantão e era onde se encaixava o hospital São Francisco naquele dia.
- PAF onde? Falou o mais novo.
- No crânio.
- É todo seu, Sereno, gritou o de jaleco impecável para o mais velho que estava em silêncio, afundado em sua poltrona.
- Veio da comunidade? Quis saber o mais novo.
- Afirmativo!
- Vão dizer que foi bala perdida ou então que foi a PM que entrou atirando para todos os lados.
Os três homens se levantaram e o mais velho que até aquele momento não tinha dado sua opinião sobre o tema em discussão, falou:
- Ligue imediatamente para a sala de TC (tomografia computadorizada) e a deixe pronta para usarmos. Vamos lá pessoal, vamos praticar o que fazemos de melhor. Vamos salvar vidas.
Esta era a rotina de uma equipe de emergência de um grande hospital público: aguardar que as pessoas se machuquem para poder correr contra o tempo a fim de: primeiro, salvar suas vidas; segundo, salvar os órgãos ou os membros afetados e por último salvar as funções destes membros.
Dr. Roberto Sereno era um neurocirurgião muito competente, tinha quase quarenta anos de idade e muitos deles dedicado à medicina. Ele era divorciado de uma psicóloga e tinha uma filha de cinco anos. Dr. Sereno era um profissional sério, mas com um metro e oitenta de altura e fartos cabelos grisalhos ainda causava suspiros nas enfermeiras onde trabalhava. Seu grande defeito era a prepotência, isso fazia dele um homem solitário.
A equipe chegou à sala de trauma pouco antes da ambulância, que trazia o paciente, estacionar em frente à entrada do hospital. Sempre que isso ocorria, havia um grande movimento dos profissionais. Uns corriam para buscar uma maca, outros preparavam os equipamentos a serem usados na intervenção inicial e a equipe médica se preparava com os equipamentos de proteção individual.
- Coloque-o aqui, apontou o Dr. Sereno com ar de superioridade assim que chegou a maca com o paciente atingido por tiro, vamos estabilizá-lo e depois fazer uma TC.
- Está com dois acessos venosos de bom calibre e em bom funcionamento, gritou o enfermeiro da equipe providenciando de imediato a verificação de pressão.
- Pressão? Pediu o Médico mais novo da equipe e que era um R3 (médico residente de 3º ano) de cirurgia geral.
- 100 por 70, gritou o enfermeiro.
- Vamos retirar toda a roupa dele para ver se há mais alguma perfuração, falou o médico mais novo olhando para o enfermeiro.
Enquanto a equipe fazia o atendimento inicial, Dr. Sereno fazia a avaliação dos sinais neurológicos preliminares e chegou a uma conclusão com uma ordem:
- Temos Glasgow 5. Vamos entubá-lo, declarou o neurocirurgião.
Glasgow é uma escala neurológica que registra o nível de consciência de uma pessoa após um traumatismo craniano.
Não havia mais nenhuma outra perfuração pelo corpo e em poucos minutos o paciente era levado para a sala de exame para avaliar a real situação da cabeça do jovem de 16 anos. O caso era grave, porém toda equipe já estava acostumada com situações parecidas e tudo era feito o mais correto possível para salvar a vida do paciente. Assim que Dr. Sereno saiu da sala de exames, uma mulher de uns quarenta anos, ruiva e algumas sardas pelo corpo interpelou o médico.
- Doutor, falou a mulher chorando, ele não é traficante não. Meu filho é um garoto direito, por favor, salve a vida dele.
- Senhora, falou o médico tranquilamente, mas com a voz firme, não me interessa a situação social de qualquer pessoa que necessite de atendimento. Para mim e minha equipe, seu filho é um paciente grave que necessita de atendimento urgente.
- Por favor, doutor, salve o meu filho.
- Tente ficar calma, vamos fazer de tudo para tirá-lo dessa situação. Agora me dê licença que vamos levá-lo para cirurgia. Eu preciso salvá-lo.
- Obrigado doutor, vou pedir a Deus que ilumine seus caminhos.
- Queria ver Deus resolver isso aqui sem minha ajuda, falou baixinho o médico para si mesmo e se dirigindo para o centro cirúrgico.
Foi uma cirurgia demorada e cansativa. Quase toda a equipe de trauma foi envolvida na cirurgia. Dr. Sereno se sentiu diferente naquele dia, estava mais ágil e ainda mais confiante. Com toda sua experiência e com os exames realizados, o médico sabia que aquele paciente, apesar da idade, estava envolvido de alguma maneira com o tráfico de drogas, porém não cabia a ele julgar o comportamento do jovem, mas tão somente o seu estado físico.
Tudo correu bem e o jovem precisaria de um bom tempo de recuperação e com grandes chances de não apresentar sequelas graves. A mulher ruiva estava de frente para o neurocirurgião quando ele deu o resultado da cirurgia.
- Salvei o seu filho, disse ele com ar triunfante, a cirurgia foi bem sucedida. O paciente está estabilizado e precisa aguardar alguns dias para serem avaliadas as possíveis sequelas. No momento ele não deve receber nenhuma visita, pois vai para o CTI para melhor acompanhamento.
- Obrigado doutor, nunca esquecerei o que o senhor fez pelo meu filho.
- Só fiz o que era minha obrigação senhora. Seu filho é forte e vai se sair bem dessa, mas ele vai precisar de muito apoio e provavelmente de muita fisioterapia.
- Tenho uma enorme dívida de gratidão com o senhor e nunca esquecerei.
- Seu filho ficará no CTI por alguns dias em coma induzido, ou seja, vamos mantê-lo dormindo. Agora me deixe ir que chegou outro paciente. Adeus senhora.
Enquanto o médico se afastava com o nariz empinado, a pobre mãe ficou a olhá-lo e agradeceu a Deus pela vida dele. Ela não tinha sido verdadeira com ele e mesmo assim ele salvou a vida de seu filho. Por inúmeras vezes ela pediu ao filho que se afastasse das más companhias, porém ele se afundava cada vez mais no tráfico. Ela tinha mentido para um homem bom e não tinha como se redimir, mas Deus há de recompensá-lo pelo que ele fez por seu menino.
A emergência de trauma de um grande hospital público tem basicamente a função de consertar os estragos que o próprio homem faz a si mesmo e ao próximo. Com o tempo a equipe aprende a fazer um bom trabalho rápido e prático sem perder a humanidade. Quem está de fora não sabe o drama pessoal de cada componente que ali trabalha, de cada médico, de cada enfermeiro e dos auxiliares administrativos que fazem o “salvar vidas” valer a pena. Muitos pacientes são salvos e não valorizam àqueles que se empenharam em algum momento por sua vida, porém a maioria vê o esforço e dedicação destes profissionais. Lembrar do benfeitor é coisa para poucos e certamente a mulher ruiva seria um deles.
O plantão já estava terminando quando Dr. Sereno ligou para Joana, a ex-esposa, dizendo que passaria na escola da filha e depois a levaria para passear um pouco. Joana era uma mulher bonita nos seus trinta anos de idade. Era psicóloga e tinha grande parte de seu tempo ocupado com a profissão. Roberto e Joana estavam separados desde o nascimento de sua filha. A ex-esposa teve um relacionamento extraconjugal logo após ter se casado com o médico. Dr. Sereno tinha uma relação conturbada com a psicóloga, pois suspeitava que a menina não fosse sua filha. Lilian era uma menina esperta de cinco anos, loira como a mãe e apresentava um sinal no pescoço em forma de cruz. Estudava num jardim de infância e algumas vezes por mês, o pai passava por lá com seu imponente Peugeot prata do ano e a levava para passear. A menina, que não tinha noção dos problemas entre os pais, adorava ir à pracinha e ficar no balanço.


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